Tributo a Onofre 
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Onofre, homenagem a um conhecido anônimo na multidão

 

Monday, September 02, 2002

 
Tributo a Onofre

Onofre era um trabalhador dedicado, fiel e correto, cumpridor de seus deveres.

Onofre era assíduo, sempre pronto a atender, obedecer, tinha os espírito dócil e manso.

Onofre, apesar de todas as suas características positivas pessoais, foi demitido de um grande banco, uma grande empresa, de milhares de funcionários - o seu comportamento exemplar de vários anos, mais de uma década, simplesmente foi desconsiderado - de repente, descobriram que ele não servia mais, foi demitido, sem justa causa, como a CLT permite.

Onofre não se deixou abalar, foi a luta, pois é uma batalha sustentar esposa e filhos - agora adolescentes.

Não deve ter sido fácil encarar o desemprego após os 40 anos.

Onofre, como a grande maioria anônima dos brasileiros, deve ter tido uma infância pobre, privada de um ambiente aonde pudesse ter sido provocado a buscar constantemente novos desafios, a luta deve ter sido pela sobrevivência.

Onofre era o tipo de pessoa que sabia viver contente em toda e qualquer situação, não era um acumulador de capital, nem especulador financeiro.

Onofre era um operário de escritório, o seu desejo era o de servir, e de receber o seu modesto salário no fim do mês, para pagar as contas, comer, criar filhos, sem grandes ambições materiais.

Onofre deve ter sofrido em silêncio, é duro folhear os jornais, os classificados de empregos, à procura de uma oportunidade - Exercício desconfortável passar os olhos sobre grandes anúncios em destaque, anunciam às vezes em inglês, exigindo uma série de qualificações cheias de siglas estranhas, MBA, GAAP, FGV, etc, etc - tinha que forçar a vista olhando as letrinhas das ofertas mais modestas, muitas vezes, enganação.

Onofre deve ter sido conduzido por um anjo até a cooperativa de trabalho, e estava cercado de outros anjos igualmente que se apoiavam mutuamente, no mundo visível e invisível.

Onofre estava muito contente, tinha um cantinho aonde trabalhava, tinha um micro, conta de e-mail, um ramal de telefone, uma cadeira confortável, cafezinho e refrigerantes, pagamento mensal - nada mau.

Onofre era solicitado por todos, foi ganhando mais responsabilidades, cuidava das pastas com informações, currículos, de valiosos candidatos, e também do almoxarifado.

Mas, quem sabe, a angústia de ter sofrido em silêncio, a dor de não entender a crueldade do "mercado" talvez tenha cobrado o seu preço - e ele somatizou tudo isso, foi corroído por dentro...

Onofre vai fazer muita falta, não apenas pelos serviços que fazia, mas pelo espírito com que atendia as pessoas.

Onofre, nosso amigo, descanse em paz, você merece.

De coração, de alguém que até conseguiu brigar com você,

Makoto





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